BREVE HISTÓRICO SOBRE O CONJUNTO SANTOS DUMONT
E A IMPORTÂNCIA DE UM ARRAIÁ

O Conjunto Santos Dumont (1956, Aron Kogan), na Rua Paim, tem mais de 1.100 apartamentos em seus três edifícios, cada um batizado com o nome de um avião de Santos Dumont. É um reduto da cultura nordestina entre seus mais de 4.000 moradores; no entanto, o conjunto ganhou o apelido pejorativo de Treme Treme devido aos padrões de tráfico de drogas que tomaram conta do vale da praça 14 Bis após a construção do viaduto para linha de ônibus (separando o vale com essa grande infraestrutura). Essa reputação negativa ofuscou a presença da cultura nordestina da área por várias décadas, até o recente período de gentrificação e "embelezamento" da Rua Paim. Hoje, os edifícios individuais - 14 Bis, Demoiselle e Caravelle - funcionam de forma independente, embora usem uma rua e uma galeria compartilhadas, o nome "Conjunto Santos Dumont" ficou praticamente esquecido.

Durante a época em que o conjunto foi batizado como Treme Treme, diz-se que os conflitos entre gangues eram frequentes e, entre outras questões, havia um problema de despejo de lixo na via interna. Isso significava que os eventos culturais típicos, por exemplo, a Festa Junina, eram transferidos para outro local a fim de proteger os participantes. Em 2019, os membros da comunidade relançaram a Festa Junina na via interna, mas, devido à COVID, seu impulso inicial foi frustrado e não houve uma Festa Junina em 2023. Aliados ao desejo da comunidade pela volta das festividades, os artistas que compõem essa proposta e discutem o acesso e o direito à cidade - começaram a perguntar aos líderes comunitários do CSD como ajudar a trazer de volta a Festa Junina em 2024, porém no mês de Julho, que é aniversário do Santos Dummond e também o período de férias escolares, que contribue para o engajamento dos jovens e crianças da comunidade.

Na ocasião do evento de 2019, os habitantes da comunidade forneceram comida e um ambiente festivo (com jogos infantis), mas sem uma quadrilha formal e um programa estabelecido.

Para o Arraiá de 2024, a publicidade do convite começa em maio, juntamente com o apoio da liderança local - chamando a participação dos habitantes do conjunto - até julho e uma preparação de duas semanas para a culminação do evento em 20 de julho. O conjunto tem um histórico de participação em refeições coletivas para eventos importantes. Usaremos o grupo de Whatsapp, bem como cartazes, para trabalhar com a comunidade no planejamento desse evento. Os artistas/equipe local se aliarão aos habitantes para preparar comidas tradicionais para a Festa Julina, e a via pública abriga 15 bares e estabelecimentos de alimentação que continuarão a vender comida como de costume.

Todas as oficinas funcionam para preparar o espaço público da via interna para o evento do festival. Por exemplo, a oficina Banderolas-estandarte envolve jovens e artistas do CSD na preparação da via com obras de arte inspiradas em cordéis e faixas para adornar as colunas ao longo da via curva. Pintar a banca na entrada tem uma finalidade semelhante; junto com os vizinhos, estamos embelezando e preparando a área para um evento agradável aberto ao público.

ARRAIÁ, A FESTA DE SANTO ANTÔNIO, SÃO JOÃO, SÃO PEDRO E AGORA TAMBÉM DE SANTOS DUMONT!

O Arraiá, ou Festa Junina, é uma das mais importantes celebrações no Brasil, juntamente ao Carnaval. É também chamada como Arraiá por ser o nome da estrutura coberta que a abriga. Nela se comemoram os santos do mês de Junho, Santo Antônio no dia 13, São João no dia 24 e São Pedro no dia 29, e acredita-se que é decorrente do sincretismo religioso entre o cristianismo e festividades pagãs do solstício de verão já praticadas desde a Antiguidade. Assim as festividades juninas sempre estiveram associadas aos ciclos da colheita, pois comemoram o fim da primavera e a chegada do verão no hemisfério norte.

No Brasil também são associadas à vida e cultura do campo, do interior do país, principalmente na região nordeste. Sua chegada aqui veio por meio da colonização portuguesa, e apesar de sua origem religiosa, ela se firmou como uma festividade de cunho popular, levando adiante o espírito sincretista dessa data, com símbolos, ritmos e comidas que são característicos da vida rural e das diferentes culturas que se entrelaçam nessa terra. Até hoje penduramos bandeirolas e fitas coloridas, luzes, confeccionam-se balões de papel seda coloridos, e são feitos diversos alimentos à base de milho e amendoim, além de vinho quente e quentão.

Ritmos como xote, xaxado, baião e arrasta pé, misturam acordeão com zabumba, triângulo, chocalho, reco-reco e viola caipira levando todos à dança em giros de roupas coloridas.

O senso de humor é um aspecto importante das nossas festividades populares, assim como a relação entre o sagrado (religião) e o profano (manifestações populares).

Isso se observa em como se transformaram elementos da festa dos santos para superstições populares. Tradicionalmente faziam-se três fogueiras de formatos diferentes para homenagear cada um dos três santos, e uma brincadeira comum era pular por cima delas como forma de simpatia, fazendo-se um desejo ao Santo de cada uma delas, muitas vezes ligadas ao amor, por serem santos casamenteiros.

É uma festa que fala de encontros culturais, abundância, partilha e otimismo sobre os frutos do nosso trabalho que virão em reverência à natureza.

O nosso Arraiá de 2024 celebra os 150 anos do nascimento do aviador Santos Dumont, o 4o Santo da nossa festa. Um santo inventor que levou o balão a novas alturas.